sábado, 4 de abril de 2015
A CLASSE DE MALKOVICH E OS PAPALVOS DE AGRAMONTE
Em menos de duas semanas partiram do mundo dos vivos duas
das personalidades mais marcantes da cultura portuguesa. Herberto e Manoel
deixam-nos uma obra enorme em volume e grandeza e são, ambos, homens de uma
cultura que se pode considerar não popular, ou melhor, impopularizável. Um e
outro nunca estabeleceram com o grande público uma relação de proximidade. Nem
foi esse o seu desejo. Criadores no mundo que eles mesmos construíram, foram
artistas artesãos apaixonados e desprovidos daquele sentimento pequeno de amor
pelo reconhecimento universal e pelas honrarias efémeras e tantas vezes
hipócritas.
Como sempre, é depois da morte de alguém que se perfilam os
empertigados nas loas, nos epitáfios balofos, numa exaltação oportunística e
tartufista das qualidades do falecido. Que ao menos sirvam estas incursões de
ocasião na obra de Herberto e de Manoel para que os descubram realmente e
possam vir a amar o que eles realizaram. Então, sim, o choro colectivo passará
a ser sentido e cantado, bem mais verdadeiro do que qualquer homenagem ou
estátua.
Recatado, quase anónimo, foi o funeral do poeta “eremita”.
Como ele quereria. «… não digam nada a ninguém e o prémio dêem-no a outro.»
O de Manoel de Oliveira viu-se e reviu-se através da
insaciável sede dos media. E viu-se a mórbida coscuvilhice dos populares que
enxamearam o velhinho cemitério de Agramonte, aquele mesmo onde tantas vezes me
desloquei pela mão de minha avó materna, construído em meados do séc. XIX após
uma tremenda epidemia de cólera no Porto; havia que enterrar os mortos e os
cemitérios então existentes encontravam-se na baixa da cidade, em ruas
propensas ao alastrar da epidemia e, assim, os enterros na baixa foram
proibidos a toda a pressa havendo que encontrar um local nos então arredores da
cidade, hoje a central Boavista.
Em Agramonte, durante o funeral, vi o inimaginável: alguém
brandindo um cartaz a dizer “Não queremos Manoel de Oliveira em Lisboa e se for
preciso construímos um Panteão no Porto”, num clara alusão à hipótese logo
formulada de o cineasta poder vir a ocupar um lugar no Panteão Nacional. O próprio
presidente da Câmara do Porto já afirmou que “gostaria que o corpo de Manoel
Oliveira permanecesse no Porto. A cidade onde nasceu, viveu e morreu”. Manoel
não é do Porto, como Herberto não é do Funchal nem de Lisboa; como Sophia não é
do Porto nem de Lisboa. Esta mesquinhez, esta mentalidade tacanha, este
aproveitamento político nojento é que tornam pequeno este país que muito faz por
não merecer os seus grandes Homens.
Malkovich, numa demonstração de pura civilidade, foi
exemplar ao responder com simpatia mas firmeza: “Hoje, não, talvez noutra
altura”, perante a insistência de uma repórter de TV para que fizesse um
comentário à morte do mestre e amigo. A classe de Malkovich em contraste com os
mirones papalvos e os hipócritas de óculos escuros e gravatas pretas
deixaram-me a pensar se não viveremos justamente onde merecemos: num país de
bonifrates de feira.
- um texto de opinião de Jorge P. Guedes, 4 Abril 2015 – Por
opção, não escrevo segundo o A. O. De 1990
Etiquetas: cinema, Cultura, Herberto Hélder, Literatura, Manoel de Oliveira, o sino da aldeia, poesia, SOCIEDADE, texto de opinião de Jorge P. Guedes
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domingo, 8 de março de 2015
«SÁBADOS COM PALAVRAS» - CONTRA A APOLOGIA DO RELES
Vivemos o tempo da descambadela total da vida pública para o
reles. Um vazio nos discursos, nas estratégias, nas explicações que o não são,
na confusão reinante entre as palavras de uns e de outros membros de um mesmo
governo, um nada no respeito pela verdade e o descarregar de culpas sobre os
amigos que o eram e já não são.
Assistimos à detenção de um director e de um chefe de
serviço do centro distrital de Lisboa da Segurança Social, suspeitos de vender
falsas declarações a dezenas de empresas de modo a que as mesmas pudessem
apresentar-se de forma fraudulenta a concursos públicos e à detenção de um ex-inspector
da PJ suspeito de associação criminosa ao passar informação sobre possíveis
vítimas a um grupo de criminosos composto por polícias e ladrões. Soubemos das
21 desobediências ao Banco de Portugal e 4 actos de gestão ruinosa de um
banqueiro e soubemos da polémica na CML sobre os benefícios a conceder a um
clube desportivo. Assistimos, estupefactos, ao gozo de Zeinal Bava na
inquirição da comissão de deputados da República. Ouvimos, ainda, um PM afirmar
que não pagou impostos devidos por esquecimento e que não se compara a um
ex-governante detido; ouvimos um
presidente da República responder aos jornalistas que o assunto “Passos Coelho”
era para ser comentado pelos comentadores, não por ele, e que já havia um
cheiro a eleições…
Pois bem. Nós não somos a Grécia, enchem o papo e piam os
berloques da Frau Merkel. O que nunca seremos é a Suécia enquanto no poder
estiverem os formatados nas jotas dos partidos do costume e a rebaldaria dos
actos indignos e ignaros dos políticos não tiver fim. Em Outubro de 2006 foi
descoberto que a ministra da Cultura do governo sueco, durante uns anos, se
tinha esquivado da sua obrigação de pagar a taxa de licença de televisão,
qualquer coisa como 2.861 Euros. Admitindo o erro, demitiu-se de imediato do
governo e invocou como motivo que a falha em cumprir estas obrigações "não
era aceitável". Algum dia seremos a Suécia?!
Contudo, há que dizê-lo, nos últimos 30 anos vários dos
nossos governantes caíram motivados por suspeições, declarações impróprias,
polémicas várias que vieram a público. Relembro Francisco Sousa Tavares, em
1985, que suspendeu o cargo de ministro por ser suspeito de ilícitos cambiais,
vindo a ser absolvido. Recordo Carlos Borrego que contou uma anedota sobre os
doentes em hemodiálise em Évora e foi demitido por Cavaco. António Vitorino
saiu do governo após notícias de que não pagara a sisa de uma casa, facto nunca
provado. Jorge Coelho, ministro do Equipamento Social do executivo de Guterres,
demitiu-se após a queda da Ponte de Entre-os-Rios. Pina Moura alegou falta de
condições políticas para as suas 50 medidas de corte na despesa pública e
foi-se embora. Daniel Bessa, ministro da Economia, Indústria, Comércio e
Turismo do XIII Governo Constitucional liderado por Guterres, caiu depois da
polémica do fecho dos hipermercados ao domingo. Manuel Pinho teve de abandonar a
pasta da Economia em virtude dos gestos impróprios que em plena AR dirigiu ao
deputado Bernardino Soares. Miguel Relvas tramou-se por mentir na AR e ter pressionado
um jornalista e cai definitivamente por causa da rábula da sua licenciatura na
Lusófona. Miguel Macedo demitiu-se por ilegalidades na atribuição de Vistos
Gold que diminuíram a sua “autoridade
política”.
Outros houve: Walter Rosa, que saiu de ministro da Indústria
depois do seu filho João ter assaltado um banco; Figueiredo Lopes saiu em
1985 por alegadas irregularidades como secretário de estado do Orçamento em
1980; e ainda outros por razões várias – Veiga Simão, Armando Vara, Fernando
Gomes, Alberto Costa, Pedro Lynce, Martins da Cruz, Isaltino Morais, Henrique
Chaves, Vítor Gaspar. Nenhum se demitiu ou foi demitido por dívidas à Segurança
Social durante 5 anos por esquecimento. Mas o certo é que cessaram funções, por
infracções graves ou menos graves. Agora, por mais atabalhoadas explicações que
o actual PM dê, com arrogância primeiro ou pretensa humildade depois, a sua
falha é inadmissível - até porque soube
da dívida em 2012 - e seria de todo passível de demissão de funções.
Num país a sério, os cargos públicos são levados muito a
sério e são os próprios prevaricadores que imediatamente apresentam a sua
demissão pela simples falta de pagamento de uma qualquer taxa de televisão. A
idoneidade e o exemplo vêm de cima, sempre, nos países em que a democracia não
é rótulo de fachada. Aí, não se faz a apologia do reles.
- um texto de opinião de Jorge P. Guedes, 08 Março 2015 (Por opção não escrevo segundo o
mais recente A.O.)
Etiquetas: CRÓNICA SEMANAL, POLITICA, Portugal, SOCIEDADE
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segunda-feira, 2 de março de 2015
EU PAGO, TU PAGAS, ELE DESCONHECE
Têm sido vários, nos últimos dias, os relatos de cidadãos
com dívidas acumuladas de juros de mora às costas porque não pagaram
atempadamente uns poucos euros devidos por coimas aplicadas pela falta de
pagamento nas auto-estradas ou por pequenas dívidas fiscais.
Sabe-se que muitos dos penhorados são pessoas idosas que vivem
sós e não têm por hábito ir diariamente à caixa do correio e outros que se
encontram ausentes do domicílio, doentes em casa ou hospitalizados. O Fisco é cego e, como o maior dos cegos,
não quer ver. É uma máquina que actua sem olhar a quem nem como. Quantos de nós
não fomos já contemplados com a frase com que um qualquer funcionário das Finanças
nos corta a capacidade de argumentar: -
Meu amigo, o desconhecimento da lei não
aproveita a ninguém”, ou seja, a ignorância de um facto legal não isenta
ninguém do seu cumprimento. Razoável este preceito, não isentando ninguém com o
mero argumento do desconhecimento dos
factos.
Ora, o problema não está no conceito “ignorantia legis
neminem excusat” mas na sua aplicação. Os faltosos ao pagamento atempado
deverão ser notificados de imediato, digamos no máximo de 30 dias, pelos
respectivos serviços das entidades credoras. Não se pode de nenhum modo admitir
que, por desconhecimento da dívida, esta possa permanecer sujeita a pagamento
de juros de mora até que um dia, passados anos e com pesados juros de mora, o devedor seja
notificado. E se este é um membro do governo, como agora sucedeu com Passos Coelho,
é absolutamente inadmissível que invoque o desconhecimento sobre uma dívida de que
o próprio afirmou ter tomado conhecimento por terceiros, no caso um jornalista.
É que a prescrição da dívida por ignorância do devedor e a sua regularização
voluntária após a prescrição é algo dificilmente explicável. E se o jornalista não tivesse questionado o PM
a propósito? E se este, como já se diz, não tivesse solicitado a regularização voluntária
da sua dívida prescrita?
Na verdade, parece existir uma inconciliação entre o direito
do devedor a ser informado de que o é e o do credor a ser ressarcido. O credor deve avisar
antes de cobrar com juros quando lhe apetecer e nunca deixar prescrever a
divida. É que para o comum dos contribuintes as dívidas ao Fisco nunca são
deixadas prescrever. Igualdade de tratamento, exige-se.
- um texto de opinião de Jorge P. Guedes – Março 2015
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sábado, 14 de dezembro de 2013
CRONIQUETA SEMANAL - «O TEMPORA, O MORES !»
Marco Túlio Cícero (106 a.C. - 43 a.C.), cônsul de Roma, era um advogado, político, filósofo, orador e escritor romano. Para muitos, o maior mestre de civismo conhecido no Ocidente. Dedicava-se a promover o amor à pátria, a decência e o servir a Roma. Entre os seus brilhantes discursos destacam-se “As Catilinárias”, quatro discursos contra Catilina, um político romano derrotado nas eleições ao cargo de cônsul nas eleições de Julh...o de 64 a.C. assim como nas de 63, ano em que Cícero foi eleito cônsul. Cícero fora informado de que Catilina tinha tudo preparado para um golpe contra a República. Sem perder tempo e com determinação, reuniu no dia seguinte os senadores no Templo de Júpiter, em Roma, e quando Catilina apareceu interpelou-o directamente: “Até quando, ó Catilina, abusarás da nossa paciência?” (...) e continuou: “Por quanto tempo ainda há-de zombar de nós essa tua loucura? A que extremos haverá de precipitar a tua audácia sem freio?”. Mais adiante nesse mesmo discurso, Cícero pronunciou a frase que ficou famosa como a expressão mais honesta e contundente da indignação perante a corrupção, a deslealdade, a falta de carácter, a ameaça a uma nação que queria viver com decência e dignidade. Cícero clamou em alta voz: O tempora, o mores! Em português: “Que tempos os nossos! E que costumes!”.
Hoje, em Portugal, quem é Cícero? Quem é Catilina?
O que está a ocorrer na cena política nacional encontra nos velhos reformados e pensionistas, nos jovens obrigados à emigração, nos desempregados, nos pobres e na classe média à beira da extinção a voz de Cícero: “Oh tempos, oh costumes!”. Sim, como Cícero procuramos entender onde estão o respeito, a honestidade, a decência, a probidade, o patriotismo das pessoas que ocupam cargos políticos. Falta-nos um novo Cícero no palco político; audaz, honrado, competente, culto, humanista e patriota. Não se vislumbra na hesitante, repetitiva e pífia oposição ninguém com tais atributos. Antes se assiste a uma mera retórica de cordel, à vacuidade de ideias, a tolejos anódinos que em nada contribuem para a esperança em dias melhores.
E quem é o Catilina dos nossos dias? Não hesito em apontar o dedo aos governantes e aos políticos funcionários dos partidos, e também aos sectores da sociedade que estão saqueando a nação. Eles fazem da trama e do embuste o meio para roubar e locupletar-se com golpes e fraudes nos mais variados campos da vida pública. Por isso, a exclamação indignada de Cícero é tão actual: “O tempora, o mores!” “Até quando, ó Catilina, abusarás da nossa paciência? Por quanto tempo ainda há-de zombar de nós essa tua loucura? A que extremos haverá de precipitar a tua audácia sem freio?”
- por Jorge MPG Sineiro, Dez. 2013 - Por decisão pessoal, não escrevo segundo o novo acordo ortográfico.
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sábado, 7 de dezembro de 2013
«CRONIQUETA SEMANAL» - A PROVA DE AVALIAÇÃO DE CONHECIMENTOS E CAPACIDADES (DE NUNO CRATO)

Uma reforma séria e frutuosa de um sistema educativo tem de começar pela base. Assim se constroem os edifícios. Se o ministro Crato entende que os candidatos a professores de carreira não sabem planear as aulas, escrever em português segundo o novo acordo ortográfico (uma exigência da prova !), resolver problemas em contextos não disciplinares; se tem dúvidas quanto às suas capacidades na leitura e interpret ...ação de textos de diversas tipologias,… então, Crato deveria revolucionar todo o sistema da formação dos candidatos e da formação dos formadores, e dos curricula dos cursos que dão acesso ao ensino, antes de fazer pagar 20 euros – absurda e miserabilista decisão – para a realização de duas provas ridículas e inúteis que, basta ler os exemplos dos itens apresentados pelo Instituto de Avaliação Educativa I.P. (IAVE) para a prova da “componente comum”, mais se assemelham a questões de testes psicológicos adequados para adolescentes e que são resolvidos sem grande dificuldade por alunos do 9º/10º ano. Deixo o link para “o padrão da prova” e convido-vos a que respondam aos 10 itens exemplificativos dos 32 que constituem a prova e que valem 80% da classificação, sendo os restantes 20% destinados a uma “composição” jactantemente apelidada de “Item de Construção (resposta extensa orientada)”. Leiam, que vale a pena! http://downloads.expresso.pt/expressoonline/PDF/Inf_Prova_Comum_2013.pdf
No “GUIA DA PROVA”, provindo do M.E.C., (http://downloads.expresso.pt/expressoonline/PDF/GuiaPACC.pdf) pode ler-se em português ao abrigo do novo e inconcebível A.O.: “A prova destina-se a quem sendo detentor de uma habilitação profissional para a docência e, não tendo ingressado na carreira docente, pretenda candidatar-se ao exercício de funções docentes nos concursos de seleção e recrutamento de pessoal docente num ou mais grupos de recrutamento, previstos no Decreto-Lei n.º 27/2006, de 10 de fevereiro, no âmbito dos estabelecimentos públicos de educação pré-escolar e dos ensinos básico e secundário na dependência do Ministério da Educação e Ciência.” (Chamo a atenção para a colocação ERRADA da vírgula logo na primeira frase. Correcto seria: “A prova destina-se a quem, sendo detentor de uma habilitação profissional para a docência e não tendo ingressado na carreira docente, pretenda candidatar-se...”)
Crato fez recuos depois de anunciar que nada viria a ser alterado. Dialogou com uma central sindical, não dialogou com outra e… alterou. A prova, inicialmente obrigatória para todos os professores com menos de 15 anos de serviço que pretendessem ingressar na carreira docente, passou para aqueles com menos de 5. A média final para aprovação, que era de 14 valores, baixou para 10. Com este modus operandi, Crato dividiu os sindicatos e terá evitado uma greve geral de professores. Logo aqui se viu a real importância que ele dá às provas. Acontece ainda que muitos destes candidatos ao ingresso na carreira docente possuem anos de serviço no ensino, foram professores contratados a preço barato pelo M.E.C. , são portadores de habilitações profissionais para a docência, a grande maioria tem uma licenciatura, um mestrado, e alguns, até, um doutoramento. Foram já reavaliados diariamente pelos alunos (os nossos melhores juízes!), pelos colegas, pelos coordenadores e orientadores de estágio, pelos próprios encarregados de educação. Não pertencem ainda aos quadros do Ministério por diversas razões, umas próprias (recusando lugares longe da família e/ou nas chamadas escolas de risco) e outras porque o Ministério não foi abrindo vagas, preferindo pagar menos a pessoal qualificado, mas contratado, ou seja, sem vínculo ao Estado. É essa gente, maioritariamente, que agora se sente humilhada e manifesta a sua indignação. Foi a essa gente que o Ministério já reconheceu competência, mas apenas enquanto contratados. É leviano, portanto, querer-se fazer acreditar que “os professores não querem ser avaliados”. O ministro da tutela sujeita agora muitos dos que já serviram o ensino público a “provas de avaliação de conhecimentos e capacidades”. Quem as elaborou? Quem as irá vigiar? Quem as corrigirá? Os mesmos formadores das ESE (Escolas Superiores de Educação) que ao longo dos anos têm dado formação na “profissionalização em serviço” e que aprovaram, até com altas classificações, professores dos quadros que nem se sabiam exprimir num português aceitável, tendo eu ouvido muitos colegas dizer repetidamente “pérolas” como: “dissestes”,” há-des”, “houveram muitas coisas”, …? Ou serão estas provas corrigidas, avaliadas, por comissões ad hoc que se passeiam há anos pelos corredores do Min. Educ. e Ciência nunca tendo exercido a nobre, desgastante e difícil profissão de professor?
Crato pretende destruir o ensino público, isso já todos percebemos. Com o cheque-ensino, já ensaiado e abandonado em outras paragens, nada mais quer do que reduzir o número de alunos nas escolas públicas e, com tal prática, reduzir a necessidade permanente de professores, reduzir custos. Porém, é sabido que os estabelecimentos de ensino privados só aceitam os melhores alunos. O ensino público passará a ser um gueto para os miúdos com mais dificuldades de aprendizagem e provenientes dos estratos sociais menos instruídos. Haverá, então, um ensino para ricos e intelectualmente mais dotados e outro para pobres e menos dotados ou interessados em aprender. O ensino universal e tendencialmente gratuito, consagrado na Constituição, está ferido de morte. Nuno Crato não será esquecido pela História como o ministro que lhe deu a estocada final.
- artigo de opinião de Jorge MPG Sineiro, redigido, por livre opção, com desprezo pelo A.O. de 1990
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sábado, 30 de novembro de 2013
«CRONIQUETA SEMANAL» – PARA ONDE NOS LEVAM?

por Jorge MPG Sineiro, 30-11-2013
Na sua exortação, de título “Evangelii Gaudium" (A alegria do Evangelho) - documento de 84 páginas que é como que o programa oficial do seu papado - o Papa Francisco reconhece estar “aberto a sugestões” para reformar o papado e atacou o capitalismo sem limites como “uma nova tirania”, advertindo ainda que a desigualdade e a exclusão social "geram violência" no mundo e podem provocar "uma explosão".... “Esta economia mata”, afirmou Francisco, que acrescentou: “hoje também temos de dizer ‘Tu não’ a uma economia de exclusão e desigualdade”. Sejamos, ou não, adeptos da fé católica apostólica romana, conforta ouvir da boca deste humanista, escutado e respeitado por milhões de pessoas, palavras conscientes, avisadas e atentas ao mundo em que vivemos. Não nos deu nenhuma novidade o Papa Francisco, especialmente a nós, portugueses, que a cada dia mais vamos sentindo a presença de uma nova tirania, de uma crescente desigualdade e exclusão social, do real perigo de ruína em que se encontra uma democracia que já só o é à superfície. Mas foi salutar escutar as suas verdades e não as ver tratadas nos “media” em linguagem de eguariço pelos plumitivos do costume e os zoilos do regime, como exortações à violência ou ajustes de contas. A política de empobrecimento seguida por este governo de rapazotes néscios e malsãos, em genuflexão perante uma nova Alemanha imperialista, é criminosa porque arrastará o país, e as futuras gerações, para a perda total da soberania e para assimetrias crescentes entre os muito ricos e os pobres. A economia não se desenvolverá como seria indispensável, os números do desemprego subirão, os jovens mais qualificados emigrarão, os reformados e os pensionistas não conseguirão alimentar-se e adquirir medicamentos, os empregados de hoje não terão nenhuma reforma amanhã, o direito à educação gratuita e universal terminará, o direito aos cuidados de saúde nos hospitais públicos será tendencialmente menor pois os privados crescem, mais e mais, para quem os pode pagar. Portugal está a correr para ser uma colónia de férias de estrangeiros. Entretanto, grassa o tartufismo e as desbragadas patranhas dos governantes, o imobilismo e as facécias de bobo de um presidente da República que jurou cumprir e fazer cumprir a Constituição em vigor. Esta economia mata. Esta política de destruição do estado social e de empobrecimento mata. Francisco afirmou-o. Em Portugal, os “perigosos esquerdistas” Adriano Moreira, Bagão Félix, Freitas do Amaral, Pacheco Pereira,… afirmaram-no. Soares avisou, em termos abertos, sem tibieza nem hipocrisia, embora num discurso ostensivamente provocatório para fazer o coelho sair da lura e a raposa da toca. Ninguém faz maior apelo à violência do que os próprios representantes máximos do país com as suas práticas e leis aprovadas pelos seus funcionários partidários (“asinus asinum fricat”) na A. R. Os extremismos são sempre perigosos e têm várias caras e, num rebanho de ovelhas mansas, pode bem esconder-se um lobo pirómano. Que se cuidem os opressores!
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