O SINO DA ALDEIA porque avisar é preciso
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Junho 2006 |
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Domingo, 6 de Março de 2011-1 DE SETEMBRO DE 1969 -KADHAFI DERRUBA O REI IDRISS Ier A 1 de Setembro de 1969, enquanto o rei Idriss Ier se havia deslocado à Turquia, o «Mouvement des officiers unionistes libres» do muito jovem capitão Mouammar Kadhafi, filho de um pastor e com 27 anos, organiza em Trípoli um golpe de Estado e depõe-no sem efusão de sangue. Forma-se, então, um Conselho Revolucionário. A Líbia dota-se, assim, de um dos dirigentes mais megalómanos e mais incontroláveis do mundo, que não deixará o poder durante mais de quatro decénios. -UM JOVEM Descendente da tribo dos Gaddafa, nascido numa tenda beduína segundo uma lenda que ele se diverte a manter, Mouammar Kadhafi recebeu uma educação religiosa severa antes de se juntar às fileiras do exército em 1965. ![]() Influenciado pelo prestígio do raïs (Chefe de Estado) egípcio Nasser, o novo homem forte da Líbia atribui-se o posto de Coronel e empreende em fazer do seu país o ponta-de-lança do panarabismo, fazendo evacuar as bases anglo-saxónicas e expulsando os 12.000 italianos que trabalhavam no país. Graças à grande quantidade do petróleo, desenvolve trabalhos titânicos no deserto líbio, onde cria enormes quintas colectivas e desenvolve a agricultura com a água das fossas do subsolo. O seu aspecto físico de jovem actor romântico e acções caprichosas valem-lhe nos primeiros anos de poder a curiosidade divertida dos ocidentais e a simpatia dos nacionalistas árabes, os quais devem fazer luto por Nasser. -O SONHO IMPERIAL Em 1976 publica o Livre vert ( O Livro Verde), inspirado no Livrinho Vermelho de Mao Zedong, no qual rejeita tanto o capitalismo como o marxismo e declara que as eleições são uma mascarada. No ano seguinte, o seu próprio modelo de governo forma-se através da proclamação da «Jamahiriya» ou «Estado das Massas , em que o povo governaria de forma enviesada por comités populares . Outorga-se o título de « Guia da Revolução », exercendo na realidade todos os poderes. A estrutura tribal da sociedade líbia justifica a seus olhos a recura das estruturas representativas, o coração da Jamahiriy, sendo ele a relação entre o estado e as tribos. O período colonial italiano, breve e complicado pela revolta dos beduínos, não havia na realidade deixado mais do que estruturas de estado frágeis. A renda petrolífera facilita as coisas, permitindo a Kadhafi comprar a fidelidade das tribos ao regime, favorecendo contudo a sua própria, a de Gaddafa, ainda que muito minoritária. Desde os primeiros tempos no poder, sonhando em reinar sobre uma grande nação árabe, Kadhafi elabora diversos projectos de união com os vizinhos sudaneses e egípcios, os quais vão definhando, e faz ocupar uma parte do território situado ao norte do Chade. Em 20 anos, Kadhafi fomenta oito projectos de fusão com outros países africanos ou árabes, todos votados a ficar em estado embrionário. Nos anos 90, decepcionado pela atitude de outros países árabes, põe-se a defender uns «Estados Unidos de África» e em 2009, logo que acede à presidência da União Africana por um ano, autoproclama-se « o rei dos reis tradicionais de África". Alimentando a imagem de personagem teatral, diverte-se em receber na sua tenda do deserto de Syrte, vestido com a roupagem tradicional dos beduínos e rodeado pelas suas « amazonas », mulheres-soldados ( para mais com tantas « afinidades »... ). -DA EXCENTRICIDADE À PASSADEIRA VERMELHA Além desta imagem extravagante, o «Guia» torna-se progressivamente a besta negra dos países ocidentais mantendo em nome do anti-imperialismo numerosos movimentos nacionalistas revolucionários, tanto palestinianos como irlandeses. O Ocidente atribui à Líbia a responsabilidade pela grande vaga terrorista que o assola nos anos 80, especialmente desde os atentados de Roma e Viena contra os interesses israelitas e em Berlim contra uma discoteca frequentada por soldados americanos. Washington solicita, então, ao mundo para tratar Kadhafi como um pária. Em 14 de Abril de 1986, dez dias após o atentado de Berlim, o presidente Ronald Reagan lança um ataque aério mortífero sobre as suas residências em Tripoli e Benghazi. A ONU decreta um embargo militar e aéreo e impõe sanções económicas ao país. Os atentados perpetrados pelos líbios contra um Boeing sobre o Lockerbie, na Escócia, a 21 de Dezembro de 1988, e contra um DC-10 francês no Niger em 19 de Setembro de 89, reforçam ainda mais o isolamento do país, que recusa a cooperar com a justiça ocidental. Contudo, no início dos anos 2000, deixando de ser qualificado como um chefe de Estado terrorista, Kadhafi procura reconciliar-se com o Ocidente. Em 2003, surpreende o mundo ao anunciar o desmantelamento dos seus programas secretos de armamento e reconhecendo mesmo a responsabilidade da Líbia nos atentados de Lockerbie e do DC-10 da UTA, tendo sido um dos filhos de Kadhafi, Saïf Al-Islam, persuadido de que o regime deveria evoluir para perdurar, um dos artífices centrais desses reencontros com o Ocidente. Em 2007, Kadhafi consente em libertar enfermeiras búlgaras e um médico palestino presos, humilhados e torturados sob a acusação totalmente absurda de haverem inoculado a SIDA em crianças. Em reconhecimento deste « gesto de humanidade » e com a esperança de frutuosos contratos de armamento e material nuclear, Nicolas Sarkozy recebe em Paris o máximo dirigente líbio com grande pompa e circunstância e onde não podia faltar a célebre passadeira vermelha, comum junto das tendas e « tendeiras » do rei. Os chefes de Estado ocidentais enchem de novo o solo líbio, enquanto as grandes companhias petrolíferas mundiais regressam à Líbia. Kadhafi obtém mesmo do italiano Berlusconi desculpas e indemnizações pelo período colonial. Soprando sempre e como ninguém tanto o quente como o frio, Kadhafi consegue fazer acolher nada menos do que como herói nacional o líbio condenado do atentado de Lockerbie assim que este é libertado por razões de saúde. -KADHAFI CONFERE HONRARIAS A ERDOGAN Nunca preocupado com provocações, Mouammar Kadhafi concede ao Primeiro Ministro turco Recep Tayyip Erdogan o Prémio Kadhafi Internacional dos direitos do homem 2010, em reconhecimento do seu apoio à causa do povo palestino. Erdogan recebeu a recompensa com grande aparato e pompa em Trípoli no dia 29 de Novembro de 2010, sem respeito pelos dirigentes europeus que persistem em considerá-lo como um dos seus. E assim encerra um ano particularmente activo que o faz aparecer como a Personalidade Política de 2010. -REBELIÃO, REPRESSÃO, REVOLUÇÃO Em Fevereiro de 2011, a reintegração de Khadafi no panorama internacional vem tropeçar na sangrenta repressão organizada pelo regime contra a revolta popular inspirada pela revolução tunisina, mostrando aos dirigentes ocidentais que tinham feito questão de esquecer que o « Guia » mata sem escrúpulos qualquer forma de oposição. A rebelião triunfa primeiro na tribo maioritária dos Warfallah, à volta de Benghazi e de onde era originário o antigo rei. Ela deixa prever a eventualidade de uma nova cisão do país entre Cirenaicos e Tripolitanos. A História prossegue a sua marcha estrada fora… Texto de Béatrice Roman-Amat com título, tradução e notas ocasionais de Jorge P.G. - 6/Março/2011 Publicação nº 822 de O SINO DA ALDEIA de Jorge P.G. -> Deixe aqui a sua badalada <-
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